quarta-feira, 23 de março de 2011

Estudo indica que religião pode acabar em nove países ricos




Dados de censos colhidos desde o século 19 indicam que a religião pode ser extinta em nove nações ricas que foram analisadas em um estudo científico.

A pesquisa identificou uma tendência de aumento no número de pessoas que afirmam não ter religião na Austrália, Áustria, Canadá, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia, Suíça e República Tcheca --o país com o índice mais elevado, com 60%, fez parte do chamado mundo socialista após a Segunda Guerra.

Usando um modelo de progressão matemática, o levantamento --divulgado durante um encontro da American Physical Society-- mostra que as pessoas que seguem alguma religião vão praticamente deixar de existir nestes países.

Na Holanda, por exemplo, 70% dos holandeses não terão religião alguma até 2050. Hoje, esse grupo já é de 40% da população.

Tendência progressista

"Em muitas democracias seculares modernas [na medida em que o progresso avanço], há uma tendência maior de as pessoas se identificarem como sem uma religião", afirma Richard Wiener, que trabalha em um centro de pesquisa em ciência avançada, subordinado ao departamento de física da Universidade do Arizona.

A pesquisa seguiu um modelo de dinâmica não-linear que leva em conta fatores sociais e a influência que exercem em uma pessoa a fazer parte de um grupo não-religioso. Os parâmetros se mostraram semelhantes em vários países pesquisados, indicando que a religião está a caminho da extinção nessas nações.

Consciência mais avançada

A rejeição à religião é um sinal de avanço da consciência humana e superação do obscurantismo na percepção da realidade. Ao longo da história, os preconceitos religiosos se chocaram de forma muitas vezes violenta contra o avanço da ciência.

A inquisição católica, na chamada Idade Média, foi uma prova grotesca da incompatibilidade entre religião e ciência, com gênios do pensamento como o filósofo Giodarno Bruno sendo queimados por defenderem ideias científicas ou perseguidos e forçados a uma falsa retratação, como foi o caso de Galileu Galilei, cujo drama foi objeto de uma bela peça teatral de Bertolt Brecht.

Obscurantismo reacionário

No dia 17 de fevereiro de 1600, Giordano Bruno foi queimado vivo no Campo dei Fiori, em Roma, sob acusação de heresia e blasfêmia. Ele sustentava que a Terra girava em torno de Sol, como de fato ocorre, mas a observação científica contrariava os dogmas reacionários da Igreja Católica,que concebia a Terra como o centro do universo.

Ao contrário de Galileu Galilei (1564–1642), Bruno se negou a mudar de opinião. Além disso, por ser padre e teólogo, suas heresias e dúvidas em relação à Santíssima Trindade, por exemplo, partiam de dentro da Igreja e foram interpretadas como um ato de insubordinação ao papa.

Já o físico, matemático e astrônomo Galileu Galilei (1564-1642) preferiu ensaiar uma falsa retratação, fingindo acreditar que a Terra era o centro do universo, conforme acreditava o papa, para não ser queimado vivo. Sobreviveu e deu continuidade, secretamente, às suas pesquisas científicas, na contramão dos dogmas religiosos e do obscurantismo da Inquisição, conforme a bela peça de Brecht (Galileu Galilei).

Com agências

segunda-feira, 21 de março de 2011

Agressão imperialista contra a Líbia: geopolítica e desforra




Mais uma vez o imperialismo usa a desculpa esfarrapada de “defender populações civis” para impor, pela força, a um país soberano, seus interesses e objetivos geopolíticos. Desta vez, o alvo do mesmo perverso roteiro, já encenado no Iraque, no Afeganistão, na Sérvia, é a Líbia.

A ação, contrariamente ao ocorrido no Iraque em 2003, tem um frágil biombo para disfarçar a agressão. Ele é constituído pela resolução do Conselho de Segurança da ONU que aprovou, por 10 votos contra cinco abstenções, as medidas agressivas contra Tripoli. O imperialismo não conseguiu sequer unir todo seu campo; entre os cinco países que não aceitaram acompanhar aquela medida, um deles é justamente a Alemanha, uma das principais potências imperialistas. Os outros quatro são, significativamente, os países que formam o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), o bloco cuja emergência marca o cenário recente no mundo.

As ações iniciadas contra a Líbia, sob comando dos EUA e reunindo forças militares de um conjunto de países europeus, destacando-se entre eles a França e a Inglaterra (além de Espanha, Itália, Noruega e Dinamarca), constituem mais uma grave violação da soberania de uma nação independente.

Desde o início, os protestos na Líbia tiveram uma característica distinta dentro da onda libertária que sacode o mundo árabe. Nos demais países, todos os sinais indicam movimentos democráticos que surgiram de maneira espontânea, manifestando o descontentamento das multidões e o repúdio contra regimes notoriamente aliados dos países imperialistas. Isso ocorreu na Tunísia, no Egito, e está em curso em outras nações, particularmente no Iêmen e no Barein. Nestes dois países, a repressão contra os manifestantes é sangrenta e mortal, deixando um rastro de cadáveres em sua passagem mas que, nem por isso, desperta nas potências o alegado sentido humanitário que proclamam contra Muamar Kadafi, evidenciando a hipocrisia das motivações que levaram à adoção da resolução agressiva do Conselho de Segurança da ONU.

Na Líbia, os protestos foram usados pelo imperialismo como uma oportunidade para a intromissão, usando como instrumento seus notórios aliados que fazem parte da chamada Frente Nacional pela Salvação da Líbia (criada e financiada pela CIA) e da monarquista União Constitucional Líbia, também apoiada pelo governo dos EUA.

Desde o início dos protestos contra Kadafi, em 20 de fevereiro, multiplicam-se os sinais de envolvimento das potências imperialistas no apoio a estas facções rebeldes, que logo constituíram um autodenominado Conselho Nacional Líbio; há notícias inclusive de que contrabandearam armas para eles. E a imprensa ligada ao imperialismo cumpriu o seu papel difundindo, pelo mundo, todo tipo de desinformação a respeito dos acontecimentos na Líbia, num nítido esforço para obter o apoio da opinião pública a favor da agressão contra o país.

Tudo isso já foi visto no passado recente, e pretende justificar este outro perigoso passo na escalada guerreira do imperialismo contra os povos.

Os ataques contra a Líbia, iniciados no sábado, envolveram mais de 19 aviões só dos EUA e 110 mísseis disparados de navios de guerra, danificando a infraestrutura do país, atingindo inclusive um hospital cardiológico, e deixando 64 civis mortos pelo menos na capital, Trípoli.

Os líbios resistem e há informações de que o governo começou a distribuir armas para um milhão de cidadãos, número que desmente a perda de apoio de Kadafi entre a população, que se mobiliza em defesa da unidade e da soberania do país.

A agressão imperialista contra a Líbia é mais uma aventura ofensiva de resultado imprevisível e demonstra, mais uma vez, a disposição do imperialismo de usar apenas a agressão e a força militar para impor suas próprias soluções aos conflitos internacionais.

A resistência pode ser tão determinada quanto a que ocorre nos outros cenários de guerra no Oriente Médio. Um dos objetivos do imperialismo é reforçar sua posição num quadro que está instável desde o inicio dos protestos árabes, no começo do ano. Além de controlar o petróleo líbio, o imperialismo busca uma posição de força na vizinhança de um Egito que pode deixar de ser um aliado incondicional e criar uma situação nova e desfavorável a seus interesses no norte da África. E pode haver também a vontade de desforra contra Kadafi que, durante décadas, foi um forte adversário de seus objetivos e domínio.

terça-feira, 15 de março de 2011

Esclarecimento à sociedade - GREVE dos Professores



O Sinpro Minas tomou conhecimento de uma nota divulgada pelo Sinep/MG, na qual a entidade patronal expõe falsos argumentos e comete deliberados erros, com a clara intenção de confundir a sociedade e desmobilizar a categoria, e orienta as escolas a não pararem no dia 16 de março (quarta-feira).

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que a paralisação das atividades é um direito legítimo dos trabalhadores, assegurado pela legislação trabalhista diante de impasses nas negociações. Assim, os professores, ao decidirem pela paralisação, de maneira autônoma, em hipótese alguma estariam praticando um comportamento “indesejável e aético” e “fugindo desastrosamente do seu papel de educador”, conforme afirmou o patronal.

Será que lutar por melhores condições de trabalho e vida é ser aético? Será que se acomodar, não tomar nenhuma atitude é a melhor maneira de ensinarmos aos nossos alunos o que é ser ético ou como exercer a cidadania de que tanto falamos em sala de aula e as escolas supostamente defendem? Afinal, quem está comprometendo o processo educativo: os professores ou os empresários que estão fazendo da educação uma mercadoria? Na verdade, quem impede os docentes, em muitas ocasiões, de exercerem com mais autonomia o papel de educador são as precárias condições de trabalho impostas pelos donos de escolas.

O Sinep/MG também duvida da sobrecarga de trabalho da categoria e diz que, para isso, é garantido o pagamento de 20% de adicional extraclasse (direito conquistado na Justiça no final de 1980). Na nota, o patronal afirma ainda que o Sinpro Minas se engana ao dizer que os professores, além de enfrentarem problemas de saúde e de violência no ambiente escolar, estão assumindo novas funções.

Deve ser pelo fato de não estarem em sala de aula e não assumirem os compromissos da carreira docente que os donos de escolas desconhecem a realidade da profissão e questionam a sobrecarga de trabalho.

Com o aparato tecnológico atual e as demandas da sociedade contemporânea, as atividades dos docentes aumentaram significativamente, consumindo, inclusive, finais de semana. Correção e elaboração de provas, atividades extraclasse e para a internet, preparação de aulas, material de recuperação, relatórios, lançamento de notas no diário virtual, enfim, uma quantidade de tarefas (muitas delas, inclusive, tradicionalmente eram realizadas pelos auxiliares de administração escolar) que se avolumou substancialmente nos últimos anos, mas o patronal se recusa a reconhecer e a valorizar. Tal realidade nos leva a perguntar se já não é o momento de o adicional extraclasse passar para 40% ou mais.

A respeito da violência nas instituições de ensino, fato mencionado na nota do patronal, vale lembrar que os próprios representantes de escolas reconheceram a existência do problema (o caso mais grave resultou na morte de um professor em dezembro do ano passado), conforme resultado de enquete divulgado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Portanto, o que o Sinpro Minas quer, ao iniciar a campanha em torno do tema, é que as escolas assumam suas responsabilidades e tomem medidas efetivas para combatê-la, ao invés de ficarem apenas no plano do discurso, como tem ocorrido até o momento.

O patronal falta com a verdade ao dizer que, desde as primeiras reuniões de negociação, não cogitou retirar direitos da categoria. No dia 18 de janeiro, a comissão de negociação do Sinep/MG apresentou, por escrito e assinada, uma contraproposta que previa a retirada de conquistas, alterando mais de 15 itens da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), como o adicional extraclasse, bolsas de estudo, férias coletivas, recesso escolar e representação sindical.

Somente após a firme posição da diretoria do Sinpro Minas durante as negociações é que os donos de escolas recuaram e desistiram dessa contraproposta. Mas, nas reuniões seguintes, a lógica foi, de fato, de só negociar avanços em troca da retirada de conquistas.

Conceder apenas um reajuste pelo INPC (6,53%) para quem ganha acima do piso, e de 7,5% para os que o recebem – como querem os donos de escolas –, é ignorar a atual realidade socioeconômica brasileira e não valorizar a categoria. Em 2010, o Produto Interno Bruto cresceu 7,5%, o maior percentual em mais de duas décadas, e a economia gerou 2,55 milhões de postos de trabalho, outro recorde. A previsão oficial para este ano é de continuidade da expansão, com crescimento em torno de 5%. Portanto, não há razões, sobretudo de ordem econômica, para que as reivindicações não sejam atendidas.

Se o patronal realmente quer valorizar a categoria, por que não equipara o piso da educação infantil (de 0 a 3 anos) ao do ensino fundamental e concede ganho real de 12%, já que as condições econômicas são favoráveis? E por que não regulamenta a educação a distância?

Ao contrário do que a nota divulgada tenta fazer crer, boa vontade, transparência, compromisso com a verdade e transigência não têm sido práticas comuns do Sinep/MG, o que nos leva à conclusão de que quem recorre a evasivas é o patronal, como estratégia para não assumir publicamente sua intenção – isto é, aumentar ainda mais a sua já elevada margem de lucro, num processo de mercantilização da educação.

Por repudiar essa postura do Sinep/MG, pelo comprometimento com os fatos e por entender que a luta dos professores deve ser também assumida por todos aqueles compromissados com a qualidade da educação, o Sinpro Minas reafirma a paralisação das atividades nos três turnos no dia 16 de março (quarta-feira) com realização de assembleia.

Deseja, ainda, contar com a compreensão e o apoio de toda a sociedade e reitera que as reivindicações da categoria vão ao encontro de uma educação de qualidade, com professores valorizados e alunos bem preparados.

ASSEMBLEIA COM PARALISAÇÃO DAS ATIVIDADES

DIA 16/3 - QUARTA-FEIRA - ÀS 9 HORAS

LOCAL: HOTEL BRISTOL MERIT - (Rua Tamóios, 341 – Centro – BH)

sábado, 12 de março de 2011

A centralidade do trabalho



Escrito por Emir Sader - fonte vermelho

Durante muito tempo as análises críticas do capitalismo promoveram as relações de trabalho a tema central, a partir das próprias análises de Marx, que definem como centrais as relações capital-trabalho nesse tipo de sociedade. Se deduziam, no campo político, consequências que reduziam praticamente as contradições sociais a essas relações que, uma vez superadas, levariam à emancipação de toda a humanidade.

Temas como os de gênero, de etnias, de meio ambiente, seriam resolvidos pela superação da contradição capital-trabalho. Mais além de saber se os países que se assumiram como socialistas ao longo do século XX aboliram essa contradição central (avançaram nessa direção, mas estatizaram os meios de produção ao invés de socializá-los, abolindo ou quase, a propriedade dos meios de produção, mas transferindo-a para uma burocracia estatal e não para os trabalhadores), nessas sociedades aquelas contradições, apontadas como secundárias, sobreviveram fortemente.

Com as grandes transformações operadas no mundo a partir dos anos 80, o mundo do trabalho passou por um processo de total reversão dessa centralidade, seja pela incorporação positiva de outras contradições – como as apontadas, de gênero, de etnia, de meio ambiente -, mas também como uma enorme desqualificação das atividades ligadas ao trabalho.

Como ressaca daquela centralidade excludente do período anterior, se passou ao seu oposto.

O tema, que era um dos mais abordados na vida acadêmica nas décadas anteriores, passou a ser um entre outros, com interesse claramente declinante. A mídia passou a inviabilizar totalmente as relações de trabalho – tanto o noticiário, quanto a ficção, como as telenovelas, em que o mundo do trabalho praticamente não existe, apenas marginalmente.

Como interessa às elites dominantes ter as centrais sindicais e os sindicatos em situação de marginalidade de fraqueza, esse objetivo foi levado adiante com afinco. Criaram um mundo em que aparentemente ninguém mais trabalha, quando é o contrário o que ocorre: nunca tantos viveram do seu próprio trabalho. Acontece que as duríssimas políticas neoliberais incentivaram o trabalho precário, promovendo a fragmentação da classe trabalhadora. Nunca se trabalhou tanto, nunca tantos trabalharam tanto, mas em condições heterogêneas, com alto desemprego e subemprego, sem carteira de trabalho, sem poder apelar à lei e à organização sindical.

Mas a grande maioria da humanidade vive do trabalho e para o trabalho. Dedica todo o seu dia a isso, desde que se desperta, passando pelo duro transporte até o local de trabalho, por jornadas pesadas, pelo retorno à casa, processo que no seu conjunto abarca praticamente 2/3 do dia, para descansar, repor minimamente as energias e retornar no dia seguinte.

O trabalho continua sendo a atividade que, de longe, mais ocupa a grande maioria da humanidade. Uma atividade precária, mal remunerada, alienada -em que os trabalhadores, que produzem as riquezas, não decidem o que produzem, para quem produzem, a que preço, etc. -, que é o cotidiano de bilhões de pessoas em todo o mundo.

Desconhecer essa realidade ou subestimá-la, é se situar fora do mundo real das pessoas. Não por acaso as políticas que mais distribuem renda – confirmado pelo processo brasileiro – tem a ver com aumentos de salários, em particular do salário mínimo, de tal forma as atividades de trabalho são centrais para a sobrevivência das pessoas.

Se as atividades humanas não podem ser reduzidas às do trabalho, a realidade é que elas cruzam a vida de praticamente todos: negros, índios, mulheres, idosos, crianças (infelizmente) trabalham. Os empresários, por sua vez, vivem do trabalho alheio.

Por isso as atividades do mundo do trabalho e tudo o que as envolve tem que voltar a ser preocupações centrais dos governos democráticos, dos movimentos populares, do pensamento crítico e de todos os que lutam pela emancipação humana, conscientes que as relações continuam a ocupar lugar central no capitalismo – seus economistas não subestimam isso – e tem que ser contempladas centralmente na construção de um Brasil justo e solidário.

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Emir Sader é sociólogo. Texto retirado de seu blog.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Imperialismo prepara carnificina na Líbia



Por: Jose Reinaldo - Vermelho

Os povos da Tunísia e do Egito derrubaram duas cruéis ditaduras apoiadas política, econômica e militarmente pelas potências imperialistas dos EUA e da União Europeia. Fizeram-no através de movimentos insurrecionais maciços, com marcada tendência revolucionária democrática e anti-imperialista. Na Líbia, o anseio por democracia está sendo atropelado pela guerra civil e a ameaça de agressão externa.

A experiência foi pedagógica e logo a oposição aos regimes retrógrados, contida a ferro e fogo durante décadas, se alastrou por todo o Magreb e Mashrek. Palavras como dignidade, liberdade, democracia, justiça social, independência nacional, soberania popular, morte aos tiranos, passaram a ser gritadas e cantadas como salmos no belo e sonoro idioma árabe. Uma jornada revolucionária que marca uma época, faz história e certamente muda qualitativamente o destino de milhões de pessoas.

Os meios de comunicação ligados às potências imperialistas fazem grande alarde sobre a rebelião árabe, aparentemente a apoiam, mas, na prática, ao evidenciar o supérfluo e esconder o essencial, aplicam a velha tática do Leopardo, de mudar algo para que tudo fique na mesma. Atraem a atenção do público para o pitoresco e, no máximo, para manobras políticas no quadro da criação de um regime liberal-burguês.

Certamente, as palavras gritadas pelos manifestantes e insurretos em todo o norte da África e no Oriente Médio não têm o mesmo significado quando interpretadas pelas forças revolucionárias e progressistas, que apoiam a emancipação dos povos, e os imperialistas, que visam perpetuar o jugo.

"Novo Oriente Médio"

Por isso, nesta hora todo cuidado é pouco com o emprego de conceitos e expressões. Não é de hoje que o imperialismo estadunidense introduziu na cena política a luta pela "reestruturação" e a "democratização" da região, das quais surgiria o "novo Oriente Médio". Ninguém menos do que George W. Bush transformou essa meta no mantra dos seus dois mandatos. Há dez anos o mais facínora de todos os mandatários do mundo moderno iniciou, pelos meios mais bárbaros, o combate pela "democratização do Oriente Médio", fazendo uma guerra de terra arrasada no Afeganistão.

Menos de dois anos depois, atacou o Iraque, de onde as tropas norte-americanas ainda não se retiraram. Massacraram o povo e cometeram magnicídio. Em 2006, quando o Líbano ardia em chamas, sob os bombardeios da aviação dos sionistas, bandidos financiados e armados pela Casa Branca e o Pentágono, a então secretária de Estado de Bush, Condoleezza Rice, disse que das cinzas nasceria o novo (sic!) Oriente Médio.

Na época, os falcões de Washington não podiam imaginar que a onda de rebeliões poria em xeque as repúblicas ditatoriais e as monarquias retrógradas dos seus acólitos: Tunísia, Egito, Arábia Saudita, Barein, Jordânia, Marrocos, Iêmen et caterva. O objetivo eram os Estados inquinados como "bandidos" : Irã e Síria. Quando se referiam a outras regiões, esses alvos eram acrescidos pela Coreia do Norte, na Ásia, e por Cuba e Venezuela na América Latina.

Para não perder o controle

Bush não está mais à frente da Casa Branca, mas essencialmente a política militarista não mudou, embora muitos se iludam, como o professor José Luís Fiori. Em artigo recentemente publicado, defende que “o projeto do presidente dos Estados Unidos pode revolucionar a geopolítica mundial”.

Os Estados Unidos e demais potências imperialistas não mudam na essência, mas fazem seu jogo tático. Procuram adaptar-se à nova situação. Se a rebelião e a insurreição das massas são inevitáveis, se os tronos balançam e as cabeças coroadas periclitam, os Estados Unidos e seus aliados buscam diferentes formas de transição, experimentando juntas militares pacificadoras, novas constituições e toda a sorte de arranjos liberais, com o objetivo de que a situação não escape do seu controle.

É nessa perspectiva que se deve analisar os acontecimentos na Líbia. Tal como nos demais países, a Líbia também viveu um breve momento de ebulição democrática. Mas, diferentemente de todos os demais países em que estão em curso rebeliões, os acontecimentos subsequentes mostraram que não era de manifestações democráticas nem de uma insurreição popular que se tratava.

As manifestações foram a gota d´água para o início de uma guerra civil e a montagem de pretextos para a intervenção militar estrangeira. O noticiário dos últimos dias está repleto de fatos comprovadores de que muito ao contrário de uma revolução popular, está em curso na Líbia uma operação pré-ordenada, em que se mancomunaram interesses internos com externos.

Kadafi, antigo líder de uma revolução anticolonial, está sendo demonizado. Durante três décadas ele se compôs com forças progressistas e anti-imperialistas no mundo. Ultimamente, fez alianças espúrias com o imperialismo mas não se converteu, como em seu tempo Sadat e depois Mubarak, em fantoche. Não exercendo qualquer controle sobre a Líbia de Kadafi, diante do menor sinal de instabilidade política, os EUA e as potências europeias se movimentam pressurosamente para se apoderar do país e de suas riquezas energéticas.

Pretextos de todo o tipo

A democracia na Líbia é questão urgente a resolver. Mas não virá pelos tanques e porta-aviões dos EUA e da Otan. A luta democrática é indissociável da soberania nacional e da soberania popular. A agressão armada viola os princípios da Carta das Nações Unidas.

Em nome do interesse das grandes potências de açambarcar o petróleo da Líbia, estão sendo invocados pretextos de todo tipo: milhares de mortos, uma centena e meia de milhar de refugiados, proteção a estrangeiros residentes no país, crise humanitária. Nenhum desses pretextos se sustenta. Os mortos e refugiados resultam da guerra civil. O exército se dividiu, uma parte aderiu à oposição. Os dois lados disparam, ferem, matam, provocam êxodo. Quanto aos estrangeiros residentes no país, não se registra qualquer ocorrência. Somente a China repatriou em poucos dias 30 mil trabalhadores sem incidentes.

Nada justifica a intervenção armada dos Estados Unidos e da Otan. A ONU não deve autorizá-la, sob pena de ser responsabilizada por mais uma carnificina. O sistema multilateral, ainda que precário, tem mecanismos que podem ser acionados para ajudar na estabilização da Líbia. A humanidade deve estar vigilante e solidária com os povos da Líbia, de todo o norte da África e do Oriente Médio, na luta pela democracia e em defesa de sua soberania. Os movimentos de solidariedade e os governos democráticos e progressistas não devem permitir que se repita a agonia de um país sob o tacão da Otan, como ocorreu há mais de uma década na ex-Iugoslávia.

*Editor do Vermelho